sábado, 28 de fevereiro de 2009

Texto do dia:

“Lá uma vez por outra, perde-se o navegador na imensidão dos oceanos. […] Quase sempre, o navegador aparece. Desviara-se da rota, apanhara um tufão, tivera uma avaria no rádio, sentira, talvez, vontade de cortar definitivamente com o mundo – que sei eu mais. Há um grande e geral suspiro de alívio, tão sincero que ninguém pensa em perguntar, sequer, quem vai pagar as despesas. Nem interessa. De tal maneira nos havíamos identificado com o navegador, que é como se o barco fosse nosso e nossa a aventura.
Este mundo tem coisas. Porque entretanto, e antes, e depois, passam todos os dias ao nosso lado outros navegadores solitários, doentes uns, desafortunados outros, sem casa nem trabalho, sem alegria, sem esperança – e ninguém atravessa a rua para lhes dizer: “estás perdido, amigo? Estás perdido?”

José Saramago, “Desde mundo e do outro”

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