sábado, 28 de fevereiro de 2009
Peças caiem no chão do meu quarto. Pétalas de rosas deviam ser. Agarro-as.
Não consigo perceber qual é o seu desenho. Não sei se quero perceber.
Será que tem uma casa á beira mar? será que tem crianças? Será que te tem a ti?
Não sei.
Uma a uma.
Vou montando este puzzle. Contigo. E nunca há-de ter fim.
As minhas acções continuam sem subir.
Continuo sem vontade de estudar.
Continuo sem viver.
Continuo sufocada.
Continuo sem grandes amigos.
Continua o Sporting a perder.
Continuo sem pagar as propinas.
Continuo a ver pornografia no computador.
Continuo a ver filmes.
Continuo…
Resignamo-nos ao destino. Resignamo-nos que é assim que a vida tem de ser e não temos vontade, nem paciência de o contrariar.
Sentamo-nos numa cadeira. Olhamos para o céu. Pedimos uma cerveja. Fumamos um cigarro. O tempo passa. Temos esperança que ele pare. Que não tenha de escolher o que vou jantar. Que não tenha de me levantar porque vai fazer frio.
Desejamos que a nossa vida seja uma fotografia. Um momento parado no tempo. Onde aquelas pessoas, aqueles sentimentos, aquele sitio, aquela brisa, ficará ali para sempre.
Acordamos. Levamos um estalo na cara. Levantamos a cabeça. Passamos a cara por água. Apercebemo-nos que estávamos a sonhar. E resignados, mais uma vez, levantamo-nos e vamos pensar o que vai ser o jantar.
E se isto é viver… é uma merda.
“Lá uma vez por outra, perde-se o navegador na imensidão dos oceanos. […] Quase sempre, o navegador aparece. Desviara-se da rota, apanhara um tufão, tivera uma avaria no rádio, sentira, talvez, vontade de cortar definitivamente com o mundo – que sei eu mais. Há um grande e geral suspiro de alívio, tão sincero que ninguém pensa em perguntar, sequer, quem vai pagar as despesas. Nem interessa. De tal maneira nos havíamos identificado com o navegador, que é como se o barco fosse nosso e nossa a aventura.
Este mundo tem coisas. Porque entretanto, e antes, e depois, passam todos os dias ao nosso lado outros navegadores solitários, doentes uns, desafortunados outros, sem casa nem trabalho, sem alegria, sem esperança – e ninguém atravessa a rua para lhes dizer: “estás perdido, amigo? Estás perdido?”
José Saramago, “Desde mundo e do outro”
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Apaixonamo-nos a velocidade da luz. Achamos que é eterno. Que ninguém vai conseguir estragar este sentimento. Pensamos que não sabemos viver sem aquela pessoa. E não sabemos. De facto, não sabemos.
É bom estar apaixonado. É bom pensar naquela pessoa. Quere-la bem e ao pé de nós. é bom sentir um friozinho a barriga á espera das suas mensagens. É bom relê-las vezes e vezes sem conta.
Não sei se isto é paixão ou amor. Mas se é. Fico feliz.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Sinto-me a sufocar.
Apetece-me gritar, mas não tenho voz. Apetece-me chorar. Choro. Agarro-me ás saias da mãe que já não tenho, mas devia. Agarro a minha memória e o cheiro a ventre materno.
Olho para a janela que esta aberta e penso em saltar. Em saltar. Saltar e esperar para ver o que acontece. Ou não esperar, apenas. Apetece-me fugir. Devia fugir de mim. Dos meus pensamentos. Das minhas manias. Dos meus tiques. Das minhas depressões. Das minhas obsessões.
Devia perceber quem sou e encontrar-me no emaranhado de personagens que tenho. Tento escolher uma delas, ao acaso. Vestir-lhe a pele. As vezes, acho que encaixa. Depressa percebo que não. Volto a despi-la. Procuro outra pessoa. Outra personagem, outra pele. Dentro da minha caixa dos sapatos. Estão lá todas escondidas. Ao monte. Tento não as ver. Pensar que elas não existem.
Agarro-me á perspectiva de estar a viver aquilo que sou. Não é outra pessoa. Não é uma das minhas personagens.
Não sei quem sou. Não sei se sou eu, ou o meu vizinho. Não sei se sou eu num dia bom ou mau. Não sei.
Sei que a minha cabana. O meu castelo. O meu mundo, está a cair. Aos poucos e poucos. Uma pedra de cada vez.
Vejo isso acontecer do lado de fora da janela. Tento esticar a mão e agarrar uma pedra. Não consigo. Puxas-me para trás e dizes que não.
E eu não vou.
Acomodo-me ao único pilar que resistiu, percebo que és tu e seguras-me a mão.
O tempo vai passando. O tempo não pára. O relógio não pára. Só pára quando lhe deixo de dar corda. Só pára quando o atiro contra a parede.
E ele continua. Sem dó nem piedade. Avança e não me deixa esquecer que mais um dia está a terminar. Como se eu me fosse esquecer, como se a noite não fosse começar a assombrar a minha alma.
Tic-tac.
Tento pensar no que ainda devia fazer hoje. Tento não pensar que vou fracassar. Que não consegui fazer tudo o que tinha planeado, que não consegui ultrapassar as minhas, próprias, metas.
Meto as mãos na cara.
Batem á porta. Levanto-me. Levanto-me dos meus pensamentos e vou ver quem é. uma rapariga, uma qualquer, a querer que eu preencha um inquérito. Contrariada, preencho. Perguntas sem sentido. Respostas sem sentido.
Continua o tempo a passar. Devia jantar. Devia levantar-me e ir viver. Devia telefonar á minha mãe e dizer-lhe para não se preocupar. Que eu estou bem.
Devia descer deste mundo de ilusões e tentar agarrar-me a algo mais real.
Devia, devia. Mas não consigo.
“Este nosso mundo não é avaro de emoções. Podemos queixar-nos de tudo, mas não de monotonia. São as guerras, de grande e pequeno formato, são as transplantações e os enfartes cardíacos, são os hippies e o poder da flor, são os movimentos da crosta terrestre e os terramotos sociais, são as campanhas presidenciais e os assassínios dos presidentes ou candidatos, são as drogas e as modos, e os cabelos compridos, e as saias bem-aventuradamente curtas e outra vez longas, e as excursões turísticas, e os atrasos dos comboios, e os computadores que pontualmente preparam a descoberta de qualquer coisa para qualquer dia, e (porque a lista não acabaria) cada um de nós neste mundo a querer saber o que cá se faz, ou pelo contrario, nada interessado em sabe-lo. Tudo isto, de uma maneira ou de outra, nos ocupada. E assim vamos passando o tempo, vagamente inquietos, vagamente perplexos, como actores que de repetente se esqueceram do papel e olham desorientados, á espera da deixa que lhes permita tornar a engrenar no texto. Ė o caso: falta-nos a deixa”
José Saramago, "neste mundo e no outro"
tento acender uma luz e parece que esta fundida. tento procurar algo. uma vela, um fósforo. algo que me de luz. uma luz exterior. que ilumine o meu caminho e que não me faça cair num abismo.
não tenho luz. o isqueiro não aparece e o fósforo esta molhado.
vou as apalpadelas a procura de algo. tento reconhecer os caminhos por onde ando. tento agarrar me a tudo o que aparece a minha frente. toco numa pessoa. tento reconhecer lhe a face e pedir lhe ajuda. ela vira me a cara num gesto de brusquidão
continuo o meu caminho. sozinha. á procura de algo. que não sei o que é . mas que não me deixe cair.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
ao fim do dia decidi ir ao café. acompanhada, fui até ao Jazz Café. tal como o nome indica, a musica que toca, geralmente, é jazz. nem sempre. ás vezes os grandes clássicos ocupam os 3 pisos do prédio, onde azulejos verdes e encarnados cobrem as paredes. sentei me numa cadeira que tem vista para a rua. a lua já estava no céu e, cheia, fazia-me recordar Lisboa. as noites de Lisboa, quentes, a passear pelo chiado a ver a lua. por momentos os meus pensamentos levaram me para outro lado, outro país, outras pessoas. o cheiro a droga faz-nos perceber o tipo de gente que frequenta aquele café. é barato. é grande. é acolhedor e tem droga. um jovem quererá alguma coisa melhor? não sei. peguei no meu bloco e escrevi-te, Ana, como tantas vezes te tenho escrito nestes momentos de calma e quase felicidade.
eram 11 da noite quando cheguei a casa. cansada. com frio. feliz.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Ao longo do filme somos confrontados com os seus pensamentos e estados de espírito. Ė impossível não concordar com o que ele diz sobre a sociedade, sobre o dinheiro e sobre os seus pais que estavam “a viver as suas mentiras em algum lado”.
Temos vontade de pegar nas mochilas e de partir. Queimar todo o dinheiro e partir. Partir para ir sentir a natureza e a felicidade.
Conhecer sítios jamais visitados, conhecer pessoas que nunca pensávamos que pudessem existir, sentir. Sentir o estado mais puro do ser.
ás vezes, tenho vontade de ser como ele. De me indignar e de partir. Pergunto-me porque não o faço e a resposta é simples: falta de coragem. Por mais que eu tenha vontade, muitas vezes, de abandonar tudo, ainda acho que pertenço aqui. Cabe-me a mim mudar as coisas que eu posso não gostar na sociedade, nos meus pais, nas pessoas que me rodeiam e tentar fazer dela um lugar habitável.
Será mais cobarde o que fica porque não tem coragem para ir ou o que vai sem ter coragem para tentar mudar as coisas? Não sei. Talvez sejam dois tipos de coragem diferente e duas pessoas, completamente, diferentes.
Talvez eu concorde com ele quando diz “hapiness is only real when shared”. Talvez ele tenha razão. Talvez.
Um dia pego na mochila e em alguém e vou algures. Depois deixo lá a pessoa e tento ver se a felicidade é, igualmente, real.
Alex Supertramp representa um bocadinho do ser aventureiro e corajoso que há em nós. Resta-nos solta-lo e viver. Viver.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Estou farta de mulheres que demoram uma hora para se arranjar na expectativa, coitadas, erróneas de saírem com um aspecto considerado decente aos olhos dos caçadores nocturnos. Que conduzem mal. Que me olham de lado. Que dizem barbaridades e futilidades como “parti uma unha”, que não gostam de política, que são feias e tem narizes estranhos, que tem bigode, que cheiram mal, que não se interessam. Que não se interessam. Gaita. Que não se interessam. Isto podia ser um texto dirigido a maioria da população mundial, interrogam-se porque o dirijo as mulheres, (se não se interrogaram ate agora, podem começar a faze-lo. Aconselho-vos a voltar atrás, a ler o texto de novo e tentar arranjar alguma lógica para o meu raciocínio), mas a resposta é simples. Eu gosto de mulheres. Por mais que elas me desiludam e sejam umas cabras. Por mais que sejam porcas e achem normal beijarem quatro rapazes numa noite e fazer sexo com eles “só porque me vou embora e gostava” (o mundo esta perdido), elas tem qualquer coisa que me da friozinho na barrinha e me faz querer mais, muito mais. O problema é que o friozinho que elas me criam, não e assim tão bom, para não deixar de suspirar cada vez que elas abrem a boca.
A mulher do século XVII não podia ser dotada de inteligência, porque não estudava. Tinha bigode, porque era normal. Cheirava mal, porque era normal. Mas tinha decência. Coisa que falta a grande maioria das mulheres hoje em dia. Com saias a mostrar tudo o que tem, pavoneiam-se pelas ruas, na esperança, de irem acompanhadas para casa. Bebem, dançam de forma espalhafatosa, gritam e caiem. Como se fossem uma montanha russa.
As mulheres são uma decepção. Lamentavelmente, são poucas que ainda se aproveitam. A minha questão é: alguma vez este ciclo vai ter fim? Ou será a mulher decente um produto da minha imaginação?
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
estou de mau humor.
tento-me mentalizar disso e tentar arranjar uma solução. não encontro. perguntam-me porquê. não sei bem. posso arranjar dois ou três motivos plausíveis, mas tudo o resto, o grosso da questão, só tem uma resposta: mau humor crónico.
acordas assim. não sabes porque, mas não consegues mudar. não ajuda ver pessoas, nem falar. não ajuda um almoço nem um passeio. nada ajuda.
tranco-me no quarto e espero que passe. vejo vídeos no computador e tento-me animar. pensar que não há motivo.
não há, não há. grito para mim mesma. não consigo. tenho vontade de chorar.
as horas passam. o dia anoitece e eu continuo trancada no meu quarto.
dói-me a cabeça. falta-me paciência para lutar contra a maré.
um cartão vem a caminho pelo correio. talvez me anime, talvez não.
vou desligar isto e dormir. tomar algo. esperar que o amanhã venha mais rápido.
esperar, esperar.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
as vezes estamos tristes. não sabemos porquê, mas não conseguimos deixar de nos sentir assim. choramos e choramos. pedem-nos justificações. não sabemos. choramos porque achamos que é a única forma de expressar tudo o que temos dentro de nós. tudo o que sentimos. tudo o que nos leva ao desespero e ao limite. choramos até nos faltar o ar e ate ser de manha. pronunciamos palavras sem sentido. procuramos abraçar o infinito.
dizem que chorar faz bem, que limpa a alma.
a mim, para alem disso, da me uma grande dor de cabeça.
não tenho vergonha de admitir que choro, embora não goste de chorar á frente de muita gente. não somos mais fracos. não somos mais medricas. apenas, somos mais humanos.
queremos pedir ajuda mas não sabemos como. queremos gritar mas não temos voz.
choramos porque nos sentimos sozinhos. choramos porque temos medo. choramos porque nos magoamos. choramos porque nos estamos a rir em demasia. são varias as coisas que nos fazem chorar, sendo que, muitas delas são absurdas aos olhos dos outros. Incompreendidos, choramos. não importa.
choramos porque temos de chorar. não há outra maneira, muitas vezes. não chores por achares que choras de mais.
chora, até te aparecer a voz, depois grita!
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
hoje, dia 2 de Fevereiro, na França é o dia dos crepes. ela lã me deu uma explicação qualquer (católica, por sinal) sobre o significado deste dia. já não me consigo recordar qual foi, mas tinha o seu interesse.
não pude deixar de achar curioso como há culturas tão diferentes da nossa, mesmo dentro da UE. quando estamos fora é que temos a percepção disso. que existem povos melhor que o nosso. que existe vida lá fora. que há pessoas diferentes de nos. que há hábitos diferentes dos nossos. muitas vezes não são melhores, nem piores, são apenas diferentes.
Erasmus ensina isso. Ensina-nos a viver com pessoas que provêem de outros países. ensina-nos a falar uma língua diferente, aprender uma culta diferente. ensina-nos a respeitar a diferença.
e uma experiencia que eu aconselho todas as pessoas a fazer. cada erasmo vem com um motivo diferente: porque estão fartos do pais, porque querem aprender uma língua nova, porque querem beber coisas diferentes.
não importa o motivo, não importa se é estúpido e se para a maioria das pessoas não faz sentido. façam as malas e venham.
deslumbrem-se por cidades inconquistadas. deslumbrem-se por pessoas diferentes de nós. deslumbrem-se. o mundo serve para isso mesmo. e sim, deslumbra-me.
nao estou.
enerva-me a falta de percepção das pessoas para perceberem que eu me estou a cagar. que eu, maioritariamente, me estou a cagar para a grande maioria das coisas que me dizem. sorriu. abano com a cabeça e digo algo que pareça interessante. a meio da convesa desligo e começo a pensar no que podia estar a fazer em vez de ali estar
enjoa-me nao conseguir por fim aquela conversa que tanta raiva me esta a causar. .continuo a sorrir e a tentar ser simpatica. a pessoa continua a falar. começo a ficar erritada e a ser desagradavel. estou farta de pessoas e dos seus temas mediocres.
estou farta de pessoas que nao sabem ser interessantes. cujos mundos se reduzem a futilidades e a frases feitas. enerva-me a mediocridade do ser!
suspiro. continuo a olhar para a janela. vou me levantar. ja me fartei de tentar ser simpatica, arranco brutalmente a mascara que tinha posta desde o inicio da conversa. transformo-me em algo que nao reconheço, mas que me da uma boa sensação de liberdade.
caminho. nao vou olhar para tras. bato com a porta.
tomo comprimidos para dormir. tenho insónias constantes.
não sei se é por ser uma pessoa nervosa ou se é por não encontrar paz na minha alma. a minha cabeça anda a mil. dói-me o corpo e as pernas. levanto-me e passo a cara por agua. parece que vejo pessoas a andar a minha volta. frases perdidas no espaço. momentos passados. abro a janela, penso que me vai ajudar a dormir. esta frio, torno a fecha-la.
tento ser racional e pensar que esta tudo bem. que não há nenhum bicho debaixo da cama. que amanha o dia vai ser bom. que nada de mal há para acontecer. que a vida me corre bem. torno a levantar-me. olho para o telemóvel e já são 4 da manha. penso que devia levantar-me e começar a arranjar-me para ir para a faculdade. não consigo. estou demasiado cansada. deito-me, novamente, a olhar para o tecto.
tento perceber o que se passa comigo. tenho suores frios. olho para o telemóvel. mensagens antigas e sem sentido fazem me ter vontade de o atirar para a parede. escrevo uma mensagem, mando ao acaso, na esperança que alguém me resposta. ninguém responde. passa uma e outra hora. continuo sem conseguir dormir e não paro de pensar. só penso. penso. penso que amanha não vou chegar as aulas a tempo porque não estou a dormir. penso que amanha não vou estudar porque vou ter sono. penso que amanha a minha mãe vai ralhar comigo porque tenho olheiras. não paro de pensar. digo meia dúzia de palavrões. enervo-me. enrolo-me nos lençóis.
e desisto.
pego em dois xanax e meto-os na boca.
claro que não me consegui levantar para ir as aulas. claro que estou com sono e não vou estudar o suficiente. claro que tenho olheiras e a minha mãe grunhiu qualquer coisa. afinal tinha razão.
o curioso é que somos nos, a grande maioria das vezes, que criamos os próprios resultados que tanto tínhamos medo que se produzissem. é estúpido e irracional. mas é humano. e gaita, por mais que tente ser um deus e achar que vocês, meros seres mortais, são inferiores, a verdade, é que não passo de um ser humano como outro qualquer.
que tem medo de não ter asas. que tem medo de cair sempre que tenta voar. que tem insónias. que chora.
“Óscar escrito na testa”.
Decidi ir ao cinema ver o “Estranho caso de Benjamin Button”. A companhia não podia ser melhor e as criticas que tinha lido sobre o filme davam-me uma estranha sensação de entusiasmo. (sempre gostei de ir ao cinema. Gosto de ver as pessoas sentadas de forma direita a olhar para um grande ecrã. Gosto de conseguir ver os detalhes todos do filme. Gosto de comer pipocas. Gosto de atirar com as pipocas. Gosto de falar com a pessoa que está ao meu lado. Gosto de por pés em cima da cadeira da frente. gosto de ficar a ouvir a musica no final do filme. Gosto de tecer comentários ao filme e de sair, regra geral, mais bem humorada do que entrei).
Como todos vocês sabem o filme retrata a história de um bebe que nasce velho e, a medida que o tempo avança, vai ficando cada vez mais novo. Um filme curioso, mas inteligentemente bem pensado. Quando ouvi, pela primeira vez, a justificação do David Fincher para a realização do filme, não pude deixar de esboçar um sorriso. De facto, quando somos jovens, novos e ingénuos, não conseguimos ter a verdadeira percepção das coisas. Depois, quando envelhecemos, já não as conseguimos viver de forma conveniente. Ou porque o nosso aspecto já não o permite, ou porque a vida já nos ensinou demasiadas coisas. Não seriamos todos muito mais felizes, com aspecto de 20 anos aos 40? Ou aos 40 anos, com uma mentalidade de 20? Não sei. Principalmente porque não sei qual vai ser o meu estado mental nesta altura.
A verdade é que todo o filme esta em sintonia. A banda sonora, a caracterização genial. Um Brad Pitt melhor do que nunca. Uma Cate Blanchet que me tira do serio e uma historia de tirar o sono a qualquer um. Chegamos a conclusão, espera-se, que a pessoa que nos ama, estará sempre connosco. Quando somos novos e quando somos velhos. Quando somos bonitos e quando somos feios. Será a pessoa que nos apoiará sempre. Que nos amará incondicionalmente.
Acima de tudo, este filme é sobre o amor.
A forma como se faz política em Portugal choca-me.
A verdade e que sempre me chocou. Mas agora começa a fazer-me sérios comichões. Cheguei a casa. Liguei a televisão na TVI (erro crasso, para começar) e reparei, com grande espanto (bem, talvez não tenha sido assim tão grande como eu estou a dizer. Mas eu gosto de exagerar e dar ênfase as coisas. Perdoem-me), que a Manuela Moura Guedes (pior jornalista que eu conheço) estava a entrevistar o tio do nosso Primeiro-ministro. Ao inicio ainda fiquei de pé e com a boca entreaberta, sem conseguir pronunciar alguma coisa. Não me saiu “merda”, não me saiu “gaita”, não me saiu nada. Fui buscar um balde de pipocas (quer dizer, não fui. Mas acho que fica bem dizer que sim) e sentei-me no sofá ao lado do meu pai que dormitava. Pus a televisão um pouco mais alta (não gosto de perder pitada destes programas de culto) e, quase tive um enfarte, quando ouço a senhora jornalista a perguntar “o senhor tem algum tipo de doença de foro psicológico?” (perceba-se que a pergunta não foi bem esta. Ela não usou bem estas palavras, mas já não me lembro quais foram. O que ela queria perguntar era “o senhor tem problemas mentais?”). nessa altura dei uma gargalhada (que acordou o meu pai) e fiquei atenta a ouvir a resposta do senhor. “sim, tenho um problema mental. A minha mãe também já tinha. Ė genético”. Não pude deixar de achar piada a resposta (não sei se achei piada a resposta em si. Ou á estupidez do senhor. A verdade é que a sinceridade das pessoas sempre foi uma coisa que me deixou muito sensibilizada. Mas a sinceridade com uma pitada de estupidez deixa-me extasiada). Mas desta resposta (humilde e sincera) retira-se uma conclusão muito importante: que a probabilidade de Sócrates ter um problema mental (o que todos nós já desconfiávamos) é maior do que se esperava.
Eu nunca gostei de ir ao circo. Eu sou uma pessoa com pouco sentido de humor. Não gosto de leões. Não gosto de palhaços (pelo menos, não me agrada pagar para os ver), acho a magia uma coisa estranha e que me assusta. A verdade é que me alegra saber que, finalmente, decidiram levar o circo as pessoas. A prova disso é que todas as sextas feiras, Manuela Moura Guedes, dá-nos meia hora de pura diarreia mental.
Levantei-me do sofá depois de ouvir esta parte da entrevista. Não consegui ouvir o resto porque estava a ficar com vontade de vomitar.
O jornalismo em Portugal e a política, afinal, não me dão só comichão. Também me dão vómitos. Será que estou a ficar mais sensível? Ou as coisas têm mesmo piorado nos últimos tempos?
Estive em Portugal.
Ė bom chegar a estação e ter ente queridos a nossa espera. é bom beber um capuchinho sentada na fnac. é bom almoçar com aqueles que nos fazem mais falta. é bom estar em casa. quando estamos longe e regressamos é que sentimos como é agradável o cheiro a roupa lavada, como sabe bem um beijo dos que mais amamos. como tudo tem um sabor diferente.
sim, gostei de estar em casa.
posso não ter aproveitado o suficiente. posso ter discutido com os meus pais. posso ter batido com o carro e ter chorado durante uma noite inteira, mas não deixei de viver e de crescer. gaita são mesmo estas coisas que nos fazem desenvolver e querer mais.
e sim, é estranho regressar.
É estranho ver o comboio a avançar e as coisas a ficarem para trás. ficar para trás a nossa casa, os nossos pais, os nossos amigos, aqueles que gostávamos que fossem mais do que amigos. tudo. sentimos que a nossa vida ficou toda para trás e que nós, apenas com a nossa sombra continuamos esta viagem.
António variações dizia: "só estou bem onde não estou". algumas vezes achei que ele tinha razão, outras vezes achei que não. agora, enquanto escrevo isto e olho para a neve a cair lá fora, não posso deixar de discordar dele. eu estou bem aqui. estou muito bem, só tenho pena que tu não estejas cá. só tenho pena que não vejas esta cidade comigo e que não possas partilhar esta (quase) felicidade a meu lado.
acho que é disso que eu sinto mais falta. dos abraços, dos beijos e dos sorrisos cúmplices. sinto falta do chiado e das pessoas estranhas a passar. sinto falta do bairro alto. sinto falta das politicas medíocres. sinto falta de pagar 2 euros por um café no chapitô. sinto falta de ir ao cinema todas as semanas. de fazer omeletas com o bruno. de queimar pipocas e fazer arder o fogão. sinto falta de ver a lua sentada na varanda a fumar. sinto falta de tudo. dos cheiros. dos sabores. E por mais que goste de estar aqui e que me sinta a crescer, dia após dias, não consigo deixar de sentir falta do que era habitual para mim. do que era "sentir-me em casa"
a única coisa que me dá alguma paz de espírito é saber que vocês estão ai á minha espera. que não vão a lado nenhum, pelo menos sem mim. Ė a certeza de saber sempre onde vos encontrar. seja aqui em Salamanca numa rua perdida, seja ai, onde tantas vezes nos cruzamos.