(In)Diferente
Pediram-me para escrever sobre mim. Nestas alturas, lembramo-nos sempre de começar pelo nosso nome e idade. Tentamos escrever sobre os nossos medos e sonhos. Tentamos fazer uma reconstrução do nosso passado e das coisas que mais nos marcaram. A mim, pediram-me para escrever sobre a minha sexualidade.
Sou a Joana, tenho 20 anos, estudo Direito e sou homossexual. Seria uma forma estranha de começar uma conversa num país como Portugal. No entanto, a vida ensinou-me que quem gosta de mim, gosta de mim como sou. Não acho que seja especial, não acho que o facto de gostar de pessoas do mesmo sexo que eu, faça de mim uma pessoa diferente. Será diferente a pessoa negra de cabelo loiro? Será diferente a rapariga baixa num país só de gente alta? Que mundo é este que permite tamanha injustiça?!
Quando tinha 15 anos e descobri que era gay, ou pus pela primeira vez essa hipótese, não pensava desta maneira. Gosto de pensar que evolui, há quem diga que se chama crescer. Se crescer implica duas tentativas de suicido e uma saída de casa aos 16 anos, eu assumo que crescer é uma merda e dói.
Dói sentirmo-nos olhados de lado. Dói sentirmo-nos diferentes. Sentimo-nos diferentes, só, por gostarmos de pessoas iguais a nós. Choramos porque achamos que a sociedade é injusta e não está preparada para nos receber. Tentamos gritar a plenos pulmões que não é a nossa sexualidade que nos define. (Eu farto-me de gritar, mas já me dói a garganta.)
É revoltante sermos tratados de maneira diferente pelos nossos pais, amigos, pela sociedade em geral. Achamos que somos os únicos a gostar de pessoas do mesmo sexo. Houve alturas que tinha nojo de mim, que achava que era doente e que o que sentia era pecado. Tentava recalcar, tentava não pensar no assunto, tentava não cair em tentação. Achava que era só uma fase, saía com rapazes e mentalizava-me que estava errada. Que eu é que estava errada. Não eram os meus pais, porque me condenavam, não eram os meus amigos, que me recriminavam, era eu. Era eu porque a minha sexualidade era diferente de todas as outras pessoas.
Hoje tenho 20 anos, acho que a sociedade é injusta e que cabe-nos a nós, homossexuais, ou não, lutarmos por aquilo que acreditamos. Hoje, dou a cara e assumo que sou homossexual, não me escondo por detrás de uma máscara e de falsos moralismos que só nos fazem sofrer e sentir infelizes. Não tenho medo do que sou, porque se aprende a viver com isso. Aprende-se a lutar contra a maré, aprende-se a viver com a diferença. Pelo menos, da cabeça dos outros.
Diferente e sempre diferente… desde que acreditemos no amor para além da nossa mente.